Levo-os até às portas da aventura. Mas são vocês que terão de abri-las, para desafiar o destino”, disse, há 29 anos, Thierry Sabine, o criador do Dakar, um homem que perdeu a vida nas areias do “seu” deserto, durante o rali de 1986, deixando os apaixonados pela aventura prosseguirem pelas pistas africanas sem a sua presença.
A primeira edição surgiu como um desafio às capacidades humanas, apostando em caminhos perdidos no tempo, muitos dos quais pistas “proibidas”, utilizadas desde que há memória pelas azalais (caravanas que chegavam a ter mais de 3000 camelos), que asseguravam o comércio cruzando o Sahara, rumo a destinos como Marrocos, Niger, Líbia e até Egipto.
Muitas pistas, sobretudo os caminhos que vão do nada para lado nenhum, no meio do Ténèré, foram mostradas a Thierry Sabine por touaregues como Mano Dyak, um dos líderes do povo do deserto. Por isso, nas primeiras edições, a palavra Aventura escrevia-se com um “A” muito grande. Cada etapa era descrita num caderno de itinerário (road-book) primário, com indicações visuais, que as tempestades de areia escondiam e o cair da noite cobria, pelo que a bússola era uma religião, e a sua agulha o “Salvador”.
Apesar de todas as dificuldades, muitos se apaixonaram pelo Dakar, e, anualmente, o número de devotos cresceu, tornando-se uma verdadeira seita masoquista…
Hoje, tudo é mais fácil. O GPS, as comunicações por satélite e as possibilidades de uma grande logística reduziram o esforço humano exigido a todos quantos seguem o Dakar. No entanto, se o amor pelo deserto continua a mover centenas de participantes, surgiram outros perigos: ódios ditados pelo fanatismo religioso, lutas étnicas ou separatistas, e até a avidez descontrolada de grupos de bandidos armados, para quem o roubo ou o rapto são uma fonte de riqueza. Estes ódios começaram por limitar e vedar o acesso a países como a fantástica Argélia, com as suas paisagens magníficas (como a foto desta página), o mesmo acontecendo com o Niger (onde a falta de segurança baniu o acesso ao Ténèré), e até, mais recentemente, com o Mali, condicionando muito os percursos de cada nova edição.
Por isso, em vésperas da 30.ª edição do Dakar, temos de concluir que o desafio continua a existir e a aventura ainda é possível para aqueles que queiram aplicar a máxima de Saint-
-Exupéry, que um dia disse: “Façam da vida um sonho, e do sonho uma realidade”… Contudo, muita coisa mudou desde que a primeira edição deixou a praça do Trocadero, no dia a seguir ao Natal de 1979. |